Filho desejado

  Perdoar não é esquecer, perdoar é lembrar e não sentir raiva, é não desejar o mal, porém o que já me fizeram, é como a cicatriz que eu olho, e lembro o porque ela está ali. Hoje tenho uma relação razoavelmente boa com a minha mãe,  nôs falamos vez ou outra pela Internet, porém não a vejo, a última vez tem uns 4 anos, até tentei visitá-la, mas toda vez era uma desculpa diferente, a casa é dela, porém o desejo que eu não vá lá é do marido dela. É incrível como a nossa vida virou de ponta cabeça depois que esse cara entrou na vida dela, como ele mesmo dizia, eu estava sobrando. Ele chegou, ela logo engravidou, ele enfim tinha a família dele completa, porém eu sobrava, e foi assim que a minha mãe também começou a ver, tudo que eu fazia incomodava, fizeram tanto que conseguiram, assim que fui expulsa de casa passei uns 7 dias na casa de uma colega de escola, nem casa ela tinha, eles tinham acabado de invadir um terreno, e a "casa" ainda estava na lona, não tinha luz, nem água encanada, mas acreditem, me senti super acolhida, e grata por terem me aceitado, infelizmente perdi o contato dessa colega. Após uns 19 anos, com algumas tentativas frustradas da minha parte, voltei a falar com a minha mãe. Não há como dizer que tenho amor por ela, esse se perdeu no caminho, após tantas coisas que passei pra sobreviver sozinha nesse tempo, e ainda o faço. Acabou que com o tempo ela foi se tornando uma estranha, e quando eu digo pra alguém que a minha família se resume em 2 pessoas, não é exagero, eu sou a família dos meus filhos, e eles a minha. Não temos ceias, não temos Natal, nunca montei uma árvore aqui, até comprei uma, mas pra mim não tem um sentido entende? Mas acho lindo assistir essa data.
 Quando eu saí de casa meu irmão tinha 1 ano e 3 meses, hoje ele tem 28 anos, também não temos tanto contato, mas eu era apaixonada naquele neném,  e quando eu saí de casa, ficar longe dele foi o que mais me machucou, doía tanto que eu cheguei a pensar em ir embora desse mundo, mas de certa forma fui covarde, não tive coragem, então pensei em ter um filho, queria desesperadamente uma criança pra tentar amenizar toda aquela dor, então eu ia pra cama com o pai dela sem vontade, e sem sentir absolutamente nada, só com a intenção de engravidar  e enfim consegui. 
No dia de fazer o ultrassom o médico disse que era uma menina, na hora meu mundo caiu, a minha expectativa em ter um garoto era tão grande que eu já tinha um enxoval todo azul. Fiquei mal uns dias, porém entendi que eu precisava amar aquela criança da mesma forma, então a bonequinha nasceu, linda, gordinha, saudável,  e concentrei todo o meu amor nela, esqueci as dores, as feridas, e cuidava dela como se fosse meu maior tesouro, e na verdade era mesmo. E quando ela nasceu eu entendi o que era ser mãe,  e pensava em como alguém poderia colocar no mundo alguém,  e depois por causa do "amor" de um homem, simplesmente joga isso no lixo, e passa a te odiar, e enxergar tudo que você faz com maus olhos. Porém lembrei que na verdade ela nunca havia sido minha mãe de verdade, logo que nasci fui morar na Bahia com a minha avó (que na minha cabeça era a minha mãe), morei com ela até os meus 4 anos de idade, minha mãe sempre me dava presentes, porém eu convivi pouco com ela, quando pequena ficava na casa das minhas tias, ou de alguém que ela contratava pra cuidar de mim, eu não conheci meu pai também,  mas isso não me fez ter traumas ou coisa do tipo, eu realmente achava a vida que eu levava era super normal. Mas não posso negar que ter sido expulsa, e ter sobrevivido nesse tempo sozinha, me mudou de certa forma. Ontem eu vi essa postagem que ela fez  e me veio um filme na cabeça. Perguntei pra ela o por quê de tanto orgulho do filho dela, e ela disse que é porque ele havia terminado o mestrado dele, eu só respondi que nem faculdade consegui terminar pois nunca sobrava dinheiro pra pagar uma (nem com os descontos). Muita gente diz que não precisa de ninguém, mas sempre precisamos uns dos outros pra chegar a algum lugar, meu irmão por exemplo, ele trabalha em lugar que paga bem, tem o carro dele, etc, mas tudo isso porque ele teve os pais fazendo tudo por ele, pagando cursos, ele não tinha preocupação em comprar comida,  pagar contas, essas coisas, e eu no caso sempre fui eu por mim mesma,  e ainda resolvi ter filhos (que amo muito), mas quem tem filhos sabe que a gente se dedica 100% pra eles, levar em médico,  comprar remédios, presentear, tentar fazer tudo por eles, e é o que eu sempre fiz, abri mão de mim por eles, não sei quantas vezes eu entrei em uma loja pra comprar roupas pra mim, tudo era pra eles, por eles, e de certa forma ainda é. 
Eu escrevo pra de certa forma ficar gravado o que eu passei, e como eu me senti em relação a toda situação, até porque o tempo passa, e as pessoas tem uma péssima mania de esquecer, ou criar outras versões pra uma situação que só você sabe como se sentiu.
 A única coisa que eu posso dizer é: _ Me desculpa mãe,  por não ter sido a filha que uma mãe não desejou ter.

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